Dieta Cetogênica Além da Epilepsia: Esclerose Múltipla, Alzheimer e Saúde Mental

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

A dieta cetogênica não é só para epilepsia: estudos de 2025-2026 mostram benefícios em esclerose múltipla, Alzheimer e transtornos psiquiátricos. BHB como combustível cerebral alternativo e inibidor de HDAC. Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO.

Dieta Cetogênica Além da Epilepsia: Esclerose Múltipla, Alzheimer e Saúde Mental

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

Quando se fala em dieta cetogênica, a primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas é emagrecimento. Mas a história real dessa dieta é bem diferente: ela nasceu na medicina, em 1921, como tratamento para epilepsia refratária em crianças. Mais de cem anos depois, a ciência está redescobrindo que os benefícios da cetose vão muito além do controle de crises. Estudos recentes apresentados no ACTRIMS Forum 2025, pesquisas conduzidas por Stanford e publicações na Nature Communications Medicine em 2026 mostram que a dieta cetogênica e suas variantes (como a dieta de Atkins modificada e a cetogênica mediterrânea) podem reduzir neuroinflamação, modificar o metabolismo de células imunes, reverter marcadores periféricos de Alzheimer e até preservar a neuroplasticidade durante o envelhecimento. Este artigo não é sobre perder peso. É sobre como os corpos cetônicos podem proteger e energizar o cérebro. Na prática clínica do Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO, a abordagem neurometabólica já faz parte da avaliação de pacientes com doenças neurológicas crônicas.

"A dieta cetogênica não é moda fitness. É uma intervenção metabólica com mais de 100 anos de uso em neurologia e evidência crescente para esclerose múltipla, Alzheimer e saúde mental."

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião, CRM/GO 28.236

Pontos-chave deste artigo:

  • 1. A dieta de Atkins modificada reduziu inflamação e alterou o metabolismo de células imunes em pacientes com esclerose múltipla (ACTRIMS 2025)
  • 2. Stanford recruta para ensaio clínico randomizado de dieta cetogênica em esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão (Dr. Shebani Sethi, 2025)
  • 3. A cetogênica mediterrânea reverteu a assinatura lipídica periférica do Alzheimer em estudo da Nature Communications Medicine (2026)
  • 4. O beta-hidroxibutirato (BHB) atua como inibidor de HDAC, anti-inflamatório e combustível alternativo para neurônios
  • 5. Mulheres portadoras de APOE4 em dieta cetogênica apresentaram microbiota intestinal mais saudável e maior energia cerebral

O que são corpos cetônicos e por que o cérebro gosta deles?

Quando o corpo é privado de carboidratos por tempo suficiente, o fígado começa a converter ácidos graxos em corpos cetônicos: beta-hidroxibutirato (BHB), acetoacetato e acetona. Esses compostos cruzam a barreira hematoencefálica e servem como combustível alternativo para os neurônios, que normalmente dependem de glicose. Em condições como resistência à insulina cerebral — cada vez mais associada ao Alzheimer — os neurônios perdem a capacidade de utilizar glicose eficientemente. Os corpos cetônicos contornam esse bloqueio, fornecendo energia limpa e eficiente. Além disso, o BHB não é apenas combustível: ele funciona como uma molécula sinalizadora que inibe as histonas desacetilases (HDAC), promovendo a expressão de genes neuroprotetores, antioxidantes e anti-inflamatórios.

Um estudo publicado no ScienceDaily em outubro de 2025, com o título "Keto keeps brain young", demonstrou que o BHB preserva mecanismos de neuroplasticidade que normalmente declinam com a idade. Em modelos animais, a cetose manteve a expressão de genes relacionados à formação de novas sinapses e à mielinização — processos essenciais para aprendizado, memória e recuperação após lesões cerebrais. Se você já leu nosso artigo sobre resistência à insulina cerebral, sabe que o metabolismo energético é central para a saúde do cérebro.

Esclerose múltipla: a dieta de Atkins modificada reduz inflamação

No ACTRIMS Forum 2025, pesquisadores apresentaram resultados de um ensaio clínico com a dieta de Atkins modificada em pacientes com esclerose múltipla (EM). A dieta reduziu marcadores inflamatórios sistêmicos e, mais importante, alterou o metabolismo de células imunes periféricas. As células T dos pacientes em dieta cetogênica mudaram de um perfil pró-inflamatório (Th17) para um perfil mais regulatório, sugerindo que a cetose pode modular a autoimunidade que destrói a mielina na EM. Embora os resultados sejam preliminares e baseados em um grupo pequeno, eles se somam a estudos anteriores que mostraram melhora na fadiga, na qualidade de vida e na composição corporal de pacientes com EM em dieta cetogênica. A esclerose múltipla é uma doença em que a neuroinflamação crônica destrói progressivamente a mielina (a "capa" protetora dos nervos), e qualquer intervenção que reduza essa inflamação de forma segura merece atenção.

Alzheimer: a cetogênica mediterrânea reverte marcadores lipídicos

Em 2026, a Nature Communications Medicine publicou um estudo demonstrando que uma dieta cetogênica mediterrânea modificada reverteu a assinatura lipídica periférica característica do Alzheimer. Pacientes com comprometimento cognitivo leve que seguiram a dieta por 12 semanas apresentaram normalização de ceramidas, esfingomielinas e outros lipídios associados à neurodegeneração. Outro achado relevante veio de estudos com mulheres portadoras do alelo APOE4 (o maior fator de risco genético para Alzheimer): aquelas em dieta cetogênica demonstraram microbiota intestinal mais diversa e saudável, maior produção de butirato no cólon e aumento do metabolismo energético cerebral medido por PET-FDG. Esses resultados sugerem que a cetogênica pode ser especialmente benéfica para o subgrupo de maior risco genético para Alzheimer, agindo no eixo intestino-cérebro e no metabolismo lipídico simultaneamente.

Dieta cetogênica e saúde cerebral

A dieta cetogênica vai muito além do emagrecimento: corpos cetônicos como o BHB fornecem energia alternativa ao cérebro e ativam vias neuroprotetoras

Saúde mental: Stanford investiga cetogênica em esquizofrenia, bipolar e depressão

A Dra. Shebani Sethi, da Universidade Stanford, lidera desde 2025 um programa pioneiro de pesquisa sobre psiquiatria metabólica. Sua equipe está recrutando pacientes para um ensaio clínico randomizado que avalia a dieta cetogênica como intervenção adjuvante em esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão resistente ao tratamento. A hipótese central é que muitos transtornos psiquiátricos graves compartilham uma base de disfunção mitocondrial e hipometabolismo cerebral — e que a cetose pode corrigir esse déficit energético. Estudos-piloto anteriores do mesmo grupo já mostraram melhora significativa em sintomas psiquiátricos, perda de peso, redução de hemoglobina glicada e melhora de marcadores metabólicos em pacientes com transtornos mentais graves. A cetose parece restaurar a função mitocondrial em neurônios que estavam "subnutridos" energeticamente. Para quem sofre de ansiedade ou depressão, essa linha de pesquisa oferece uma perspectiva complementar.

Mecanismos neuroprotetores do BHB

O beta-hidroxibutirato (BHB) é o corpo cetônico mais abundante e mais estudado. Seus mecanismos de ação no cérebro incluem: 1) Combustível alternativo — o BHB é oxidado nas mitocôndrias neuronais para gerar ATP, contornando a dependência de glicose; 2) Inibidor de HDAC — ao inibir histonas desacetilases de classe I e III, o BHB aumenta a expressão de genes antioxidantes como FOXO3, MnSOD e catalase; 3) Anti-inflamatório — o BHB inibe diretamente o inflamassoma NLRP3, reduzindo a produção de IL-1β e IL-18, citocinas centrais na neuroinflamação; 4) Modulador da microbiota — a cetose altera o perfil de bactérias intestinais, aumentando espécies produtoras de butirato e reduzindo espécies pró-inflamatórias; 5) Epigenético — o BHB promove a beta-hidroxibutirilação de histonas, uma modificação epigenética recém-descoberta que regula genes de resposta ao estresse e ao jejum.

Guia prático: como implementar a cetogênica com segurança

A dieta cetogênica clássica limita carboidratos a 20-50g/dia, com 70-80% das calorias vindas de gorduras e 15-20% de proteínas. Variantes como a dieta de Atkins modificada (mais flexível em proteínas) e a cetogênica mediterrânea (priorizando azeite, peixes, nozes e vegetais de baixo índice glicêmico) são mais sustentáveis a longo prazo e apresentam melhor perfil cardiovascular. Para fins neurológicos, o objetivo é manter o BHB sérico entre 0,5 e 3,0 mmol/L, o que pode ser monitorado com medidores portáteis de cetonas. Os primeiros dias podem ser desconfortáveis (a chamada "gripe cetogênica"), com fadiga, dor de cabeça e irritabilidade, mas esses sintomas geralmente cedem em 1-2 semanas com hidratação adequada e reposição de eletrólitos (sódio, potássio, magnésio).

O jejum intermitente pode ser uma porta de entrada mais acessível para a cetose, já que períodos prolongados sem alimentação induzem naturalmente a produção de corpos cetônicos. A alimentação para o cérebro é um tema amplo, e a cetogênica é uma das estratégias dentro desse arsenal. Na clínica do Dr. Marcelo Lamberti em Itumbiara, a orientação é sempre individualizada: nem todo paciente é candidato à cetogênica, e o acompanhamento médico e nutricional é essencial.

Contraindicações e cuidados importantes

A dieta cetogênica não é indicada para todas as pessoas. Pacientes com deficiência de carnitina, defeitos na beta-oxidação de ácidos graxos, porfiria ou insuficiência hepática grave não devem seguir dieta cetogênica. Gestantes e lactantes devem evitar cetose prolongada. Pacientes com histórico de transtornos alimentares precisam de avaliação cuidadosa. O uso crônico de dieta cetogênica clássica pode aumentar o colesterol LDL em alguns indivíduos — a variante mediterrânea tende a ter perfil lipídico mais favorável. Cálculos renais são um efeito colateral possível (2-7% dos pacientes em cetogênica clássica), prevenível com boa hidratação e suplementação de citrato. O Dr. Marcelo Lamberti enfatiza: dieta cetogênica para fins neurológicos deve ser sempre prescrita e monitorada por profissionais de saúde.

"A cetose não é apenas uma via alternativa de energia. É uma reprogramação metabólica que ativa mecanismos de proteção celular que estavam dormentes. Para pacientes neurológicos, isso pode significar menos inflamação, mais energia cerebral e melhor qualidade de vida."
Dr. Marcelo Lamberti

Perguntas frequentes (FAQ)

A dieta cetogênica serve para emagrecer ou para o cérebro?

As duas coisas, mas neste contexto o foco é neurológico. A cetogênica nasceu como tratamento para epilepsia e hoje é estudada para Alzheimer, esclerose múltipla, Parkinson e transtornos psiquiátricos. O emagrecimento pode ser um efeito colateral bem-vindo, mas não é o objetivo principal da prescrição neurometabólica.

Preciso eliminar completamente os carboidratos?

Não necessariamente. A dieta de Atkins modificada permite até 20-30g de carboidratos líquidos por dia, enquanto a cetogênica mediterrânea permite vegetais de baixo índice glicêmico de forma mais liberal. O importante é manter os níveis de BHB na faixa terapêutica (0,5-3,0 mmol/L), o que pode ser monitorado com aparelhos portáteis.

O jejum intermitente tem os mesmos efeitos?

O jejum intermitente induz cetose leve e compartilha alguns mecanismos com a dieta cetogênica, como aumento do BHB e ativação de vias de autofagia. Porém, a cetose é menos profunda e mais intermitente. Para condições neurológicas que demandam cetose sustentada (como epilepsia refratária), a dieta cetogênica é mais eficaz. O jejum pode ser uma boa estratégia complementar.

A dieta cetogênica é segura a longo prazo?

Existem pacientes com epilepsia que seguem dieta cetogênica há décadas com segurança, desde que monitorados. Os riscos incluem cálculos renais, aumento do colesterol em indivíduos suscetíveis e deficiências nutricionais se não houver suplementação adequada. A variante mediterrânea tem perfil de segurança mais favorável. Acompanhamento médico é essencial.

Posso fazer dieta cetogênica sem acompanhamento médico?

Para fins de emagrecimento em pessoas saudáveis, a cetogênica é geralmente segura por curtos períodos. Mas para fins neurológicos ou em pacientes com doenças crônicas, o acompanhamento médico e nutricional é obrigatório. O Dr. Marcelo Lamberti recomenda sempre exames prévios (perfil lipídico, função renal, eletrólitos) e monitoramento periódico.

Existem suplementos que imitam a cetose sem fazer dieta?

Sim, os chamados "cetonas exógenas" (sais ou ésteres de BHB) podem elevar o BHB sérico sem restrição de carboidratos. Porém, os benefícios metabólicos completos (como melhora da sensibilidade à insulina e modulação da microbiota) dependem da cetose endógena produzida pela dieta. As cetonas exógenas podem ser úteis como complemento, mas não substituem a dieta cetogênica para fins neurológicos.

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Fontes e Referências

1. Brenton JN, Lehner-Gulotta D, Woolbright E, et al. Phase II study of ketogenic diets in relapsing multiple sclerosis: safety, tolerability and potential clinical benefits. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2022;93(6):637-644.
2. Nagpal R, Neth BJ, Wang S, Craft S, Yadav H. Modified Mediterranean-ketogenic diet modulates gut microbiome and short-chain fatty acids in association with Alzheimer's disease markers in subjects with mild cognitive impairment. EBioMedicine. 2019;47:529-542.
3. Sethi S, Wakeham D, Ketter T, et al. Ketogenic diet intervention on metabolic and psychiatric health in bipolar and schizophrenia: a pilot trial. Psychiatry Res. 2024;335:115866.
4. Newman JC, Verdin E. β-Hydroxybutyrate: a signaling metabolite. Annu Rev Nutr. 2017;37:51-76.
5. Phillips MCL, Deprez LM, Mortimer GMN, et al. Randomized crossover trial of a modified ketogenic diet in Alzheimer's disease. Alzheimers Res Ther. 2021;13(1):51.
6. Youm YH, Nguyen KY, Grant RW, et al. The ketone metabolite β-hydroxybutyrate blocks NLRP3 inflammasome-mediated inflammatory disease. Nat Med. 2015;21(3):263-269.
7. Neth BJ, Mintz A, Whitlow C, et al. Modified ketogenic diet is associated with improved cerebrospinal fluid biomarker profile, cerebral perfusion, and cerebral ketone body uptake in older adults at risk for Alzheimer's disease: a pilot study. Neurobiol Aging. 2020;86:54-63.

Atendimento em Itumbiara/GO

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião. Rua João Manoel de Souza, 881, Itumbiara/GO. Tel: (64) 99297-1512.