Protrusão Discal: Diferença Entre Protrusão e Hérnia de Disco

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

Protrusão e hérnia de disco aparecem com frequência em laudos de ressonância magnética, mas são condições distintas. Entenda a diferença entre elas, quando cada uma precisa de tratamento e por que o que importa é o quadro clínico, não só o exame. Consulte o Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO.

Protrusão Discal: Diferença Entre Protrusão e Hérnia de Disco

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

Protrusão discal e hérnia de disco são dois termos que aparecem frequentemente em laudos de ressonância magnética, e que geram muita confusão, preocupação e, não raro, tratamentos desnecessários. Ambos descrevem alterações no disco intervertebral, a estrutura amortecedora entre as vértebras, mas representam graus diferentes de comprometimento e têm implicações clínicas e terapêuticas distintas. Compreender essa diferença é fundamental para evitar que achados de imagem sem significado clínico se transformem em diagnósticos aterrorizantes e decisões terapêuticas equivocadas. Uma metanálise publicada no American Journal of Neuroradiology (Brinjikji et al., 2015) avaliou mais de 3.000 indivíduos assintomáticos e encontrou protrusões discais em 30% dos adultos com 20 anos, chegando a 84% em adultos acima de 80 anos, a maioria sem nenhuma dor.

"Nem toda protrusão é hérnia, e nem toda hérnia precisa de cirurgia. O que decide o tratamento é como você está, não apenas o que aparece na ressonância."

Dr. Marcelo Lamberti

A nomenclatura padronizada para alterações discais foi definida pela North American Spine Society (NASS), pela American Society of Spine Radiology (ASSR) e pela American Society of Neuroradiology (ASNR) em consenso publicado na Spine em 2014, e revisado em 2020. Essa nomenclatura unificada busca reduzir a variabilidade de terminologia entre radiologistas e melhorar a comunicação com os clínicos.

CaracterísticaProtrusão DiscalHérnia de Disco
Anel fibrosoÍntegro (abaulado)Rompido (extrusão do núcleo)
GravidadeGeralmente leve a moderadaPode ser grave
Compressão nervosaRara ou leveFrequente e significativa
Dor irradiadaIncomumComum (ciática, cervicobraquialgia)
Déficit neurológicoRaroPossível (fraqueza, dormência)
Visível na RMDisco abaulado sem rupturaFragmento discal além do anel
Tratamento inicialConservador (quase sempre)Conservador ou cirúrgico
Cirurgia necessáriaRaramenteEm 10-15% dos casos

O que é uma protrusão discal, e por que é diferente de hérnia?

O disco intervertebral tem duas partes principais: o núcleo pulposo (centro gelatinoso, rico em água e proteoglicanos, que responde pela capacidade amortecedora) e o anel fibroso (camadas concêntricas de fibras colágenas resistentes que envolvem e contêm o núcleo). Na protrusão discal, o núcleo pulposo se desloca em direção à periferia do disco, abaulando o anel fibroso para fora, mas sem rompê-lo. O critério fundamental da nomenclatura padronizada é que, na protrusão, a base do deslocamento é sempre maior que sua extensão em qualquer direção. Pense como apertar uma hambúrguer no centro: a carne se avoluma para os lados, mas a embalagem continua íntegra. A protrusão é considerada a forma mais leve de degeneração discal com deslocamento de material e, na grande maioria dos casos, responde bem ao tratamento conservador, frequentemente sendo assintomática ou causando apenas desconforto lombar inespecífico.

Hérnia de disco: extrusão, sequestro e suas consequências

Na hérnia de disco verdadeira, a extensão do material deslocado é maior que sua base. Esse é o critério que a diferencia da protrusão pela nomenclatura NASS. O anel fibroso apresenta ruptura, permitindo que o núcleo pulposo extravase para além do espaço discal. A hérnia pode ser subligamentar (o material herniado está contido pelo ligamento longitudinal posterior, ainda íntegro), extrusa (rompeu o ligamento e está em contato com o canal vertebral) ou sequestrada (um fragmento do disco se desprendeu completamente e migrou no canal vertebral ou nos forames). As hérnias extrusas e sequestradas causam compressão nervosa mais intensa e frequentemente desencadeiam uma forte reação inflamatória, com liberação de fosfolipase A2 e citocinas, que amplifica a dor além da compressão mecânica simples. Paradoxalmente, fragmentos sequestrados têm a maior taxa de reabsorção espontânea: estudos mostram redução de 80% a 100% do volume em alguns casos ao longo de 3 a 6 meses, pois o sistema imune reconhece e degrada o material nuclear extravazado.

Ressonância magnética da coluna mostrando discos intervertebrais

Entender a diferença entre protrusão e hérnia de disco ajuda você a tomar decisões informadas sobre o tratamento

"Nem toda protrusão é hérnia e nem toda hérnia precisa de cirurgia. O que decide o tratamento não é apenas o que aparece na ressonância magnética, mas como o paciente está. A dor, a função neurológica e a resposta ao tratamento conservador. Imagem e clínica precisam ser avaliadas juntas, por um especialista que conheça os dois."
Dr. Marcelo Lamberti

Quando tratar de forma conservadora e quando operar?

Em termos práticos, tanto a protrusão quanto a hérnia de disco podem ser completamente assintomáticas (achados incidentais de ressonância sem nenhuma dor) ou causar desde desconforto leve até dor ciática incapacitante com déficit neurológico grave. O tratamento , seja conservador com fisioterapia, anti-inflamatórios, neuromoduladores e infiltrações peridurais, ou cirúrgico com microdiscectomia ou técnica endoscópica, é sempre guiado pelo quadro clínico, pela presença e progressão de déficit neurológico, e pela resposta ao tratamento conservador ao longo de 6 a 12 semanas. A única indicação de cirurgia de urgência é a síndrome da cauda equina (perda de controle da bexiga ou intestino), independentemente do grau de protrusão ou extrusão na imagem. Por isso, ao receber um laudo de ressonância com esses termos, o mais importante é discuti-lo com um especialista em coluna que avalie você como um todo: seus sintomas, seu exame neurológico, sua qualidade de vida, e não apenas os seus exames de imagem.

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Fontes e Referências

1. Fardon DF et al. Lumbar disc nomenclature: version 2.0: Recommendations of the combined task forces of the North American Spine Society, the American Society of Spine Radiology, and the American Society of Neuroradiology. Spine, 2014;39(24):E1448-E1465. DOI: 10.1097/BRS.0b013e3182a8866d

2. Brinjikji W et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol, 2015;36(4):811-816. DOI: 10.3174/ajnr.A4173

3. Chiu CC et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil, 2015;29(2):184-195. DOI: 10.1177/0269215514540919

4. Zhong M et al. Incidence of spontaneous resorption of lumbar disc herniation: a meta-analysis. Pain Physician, 2017;20(1):E45-E52. PMID: 28072796

Atendimento em Itumbiara/GO

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