Quiropraxia na Coluna: Ajuda ou Coloca em Risco?

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

Manipulação cervical pode causar dissecção da artéria vertebral. Quiropraxia tem evidência para dor lombar aguda, mas não para hérnia de disco. Entenda os riscos e benefícios. Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO.

Quiropraxia na Coluna: Ajuda ou Coloca em Risco?

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

A quiropraxia é uma das terapias complementares mais populares para dor na coluna — e também uma das mais controversas. Milhões de brasileiros buscam quiropraxistas para "ajustar" a coluna, atraídos por promessas de alívio imediato. Mas o que a ciência realmente diz? A manipulação vertebral é eficaz? É segura? Quando pode ajudar e quando pode colocar sua saúde em risco?

Este artigo apresenta uma análise baseada em evidências, sem corporativismo nem preconceito — apenas o que as melhores revisões sistemáticas e estudos clínicos demonstram. O Dr. Marcelo Lamberti, como neurocirurgião, já operou pacientes com complicações após manipulação cervical. Mas também reconhece que, em contextos específicos, a terapia manual pode ter seu lugar. Entenda os dois lados.

"Eu não sou contra a quiropraxia — sou contra a manipulação cervical de alta velocidade sem indicação clara e sem investigação prévia. O risco, embora raro, é catastrófico e irreversível."

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião | Atuação em Dor · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222

Pontos-chave deste artigo

  • ✓A manipulação vertebral tem evidência moderada para dor lombar aguda — equivalente a anti-inflamatórios
  • ✓Para dor lombar crônica, a evidência é fraca — exercício terapêutico é superior
  • ✓Manipulação cervical de alta velocidade pode causar dissecção da artéria vertebral — um AVC potencialmente fatal
  • ✓Não existe evidência de que a quiropraxia trate hérnia de disco ou "coloque vértebra no lugar"
  • ✓O conceito de "subluxação vertebral" como causa de doenças não tem suporte científico

O que é quiropraxia? Origem e princípios

A quiropraxia foi fundada por Daniel David Palmer em 1895, nos Estados Unidos. Palmer acreditava que a maioria das doenças era causada por "subluxações" vertebrais que bloqueavam o fluxo de uma "inteligência inata" através do sistema nervoso. Sua primeira manipulação foi em Harvey Lillard, um zelador que relatou ter ficado surdo após "sentir algo estalar" nas costas. Palmer supostamente "ajustou" a vértebra e restaurou sua audição — um relato sem qualquer plausibilidade anatômica, já que a audição não passa pela coluna vertebral.

Hoje, a quiropraxia se divide em duas correntes: os "straight" (tradicionais), que mantêm o conceito vitalista original e acreditam que o ajuste quiroprático pode tratar desde cólica em bebê até asma; e os "mixers" (baseados em evidências), que abandonaram a teoria da subluxação e praticam a manipulação vertebral como uma ferramenta de terapia manual para dor musculoesquelética, integrada a exercícios e educação. A diferença entre esses dois grupos é fundamental.

O que realmente acontece no "estalo"?

O som de "crack" durante a manipulação vertebral é chamado de cavitação articular. Quando a articulação facetária é levada além de seu range de movimento passivo por um thrust (impulso rápido), a pressão intra-articular cai e gases dissolvidos no líquido sinovial (principalmente CO₂) formam uma bolha que colapsa, gerando o som. É o mesmo fenômeno de estalar os dedos. O estalo não significa que uma vértebra voltou ao lugar — as vértebras não "saem do lugar" a não ser em fraturas-luxações graves (traumas de alta energia).

O efeito terapêutico da manipulação provavelmente está relacionado a mecanismos neurofisiológicos: ativação de mecanorreceptores articulares que modulam a dor (gate control), relaxamento reflexo da musculatura paravertebral, liberação de endorfinas e redução temporária da atividade de neurônios do corno dorsal da medula. É um efeito real, mas temporário — semelhante ao de uma massagem profunda.

Evidências para dor lombar

A revisão Cochrane mais recente (Rubinstein et al., 2019) avaliou 47 ensaios clínicos randomizados sobre manipulação vertebral para dor lombar. Os resultados:

  • Dor lombar aguda (< 6 semanas): a manipulação produziu melhora modesta na dor e função a curto prazo, comparável a anti-inflamatórios e fisioterapia convencional. Não foi superior a outras terapias manuais (mobilização, massagem).
  • Dor lombar crônica (> 12 semanas): evidência de baixa qualidade para benefício a curto prazo. Não mostrou superioridade sobre exercício terapêutico, que tem efeitos mais duradouros.
  • Ciática / radiculopatia:não há evidência de que a manipulação vertebral trate hérnia de disco com radiculopatia. A hérnia é uma compressão mecânica — nenhum "ajuste" muda o tamanho do fragmento herniado.

O risco da manipulação cervical: dissecção da artéria vertebral

Este é o ponto mais importante e controverso deste artigo. A manipulação cervical de alta velocidade e baixa amplitude (HVLA) envolve rotação rápida e extensão do pescoço. As artérias vertebrais, que passam através de foramens nas vértebras cervicais antes de entrar no crânio para irrigar o tronco cerebral e o cerebelo, são vulneráveis durante essa manobra.

A rotação e extensão forçadas podem causar dissecção da artéria vertebral — um rasgo na parede interna do vaso que leva à formação de coágulo, obstrução do fluxo sanguíneo e AVC de fossa posterior (acidente vascular cerebral do cerebelo e tronco encefálico). As consequências podem incluir: vertigem permanente, ataxia cerebelar, síndrome de Wallenberg, locked-in syndrome (consciência preservada com paralisia total) e morte.

Um estudo caso-controle publicado no Stroke (Cassidy et al., 2008) encontrou associação entre visitas ao quiropraxista e AVC vertebrobasilar, embora os autores argumentem que a cefaleia/cervicalgia que levou o paciente ao quiropraxista pode ter sido o primeiro sintoma da dissecção em andamento (viés de protopática). Independentemente da direção causal, múltiplos case reports e séries de casos documentam dissecção arterial imediatamente após manipulação cervical.

Fatores de risco para dissecção

  • !Idade abaixo de 45 anos (artérias mais elásticas e suscetíveis a dissecção)
  • !Doenças do tecido conjuntivo (Ehlers-Danlos, Marfan)
  • !Hipertensão arterial não controlada
  • !Enxaqueca com aura (associada a maior prevalência de dissecção)
  • !Manipulações cervicais repetidas e frequentes

O mito da "subluxação vertebral"

O conceito central da quiropraxia tradicional é a "subluxação vertebral" — um suposto desalinhamento de vértebras que comprime nervos e causa doenças diversas. Este conceito não tem suporte em evidências científicas. Revisões independentes não conseguiram demonstrar que subluxações quiropráticas existam como entidade patológica detectável por exame de imagem, nem que sua "correção" produza benefícios para a saúde geral.

A General Chiropractic Council do Reino Unido emitiu orientação em 2010 declarando que não há evidência de que a quiropraxia trate cólica infantil, asma, otite, alergias ou qualquer doença visceral. Quiropraxistas que fazem essas alegações estão praticando fora das evidências.

Quando a terapia manual pode ser útil?

É importante separar a terapia manual baseada em evidências da quiropraxia dogmática. A manipulação e mobilização vertebral, quando aplicadas por profissionais qualificados (quiropraxistas baseados em evidências, fisioterapeutas manuais, osteopatas) e integradas a exercício e educação, podem ser úteis para:

  • Dor lombar aguda inespecífica — como adjuvante por curto período (1-4 sessões)
  • Cervicalgia mecânica — mobilização (sem thrust cervical) com exercícios
  • Cefaleia cervicogênica — evidência moderada quando combinada com exercício
  • Rigidez torácica — a região torácica é mais segura para manipulação

"A terapia manual é uma ferramenta legítima — quando usada como complemento, não como tratamento exclusivo. Nenhuma mão no mundo reposiciona uma hérnia de disco ou alinha uma vértebra permanentemente. O que sustenta sua coluna são seus músculos, não sessões semanais de ajuste."

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião | Atuação em Dor · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222

Red flags: quando NÃO procurar quiropraxia

  • Hérnia de disco com déficit neurológico (fraqueza, perda de sensibilidade) — precisa de avaliação médica urgente
  • Síndrome da cauda equina (perda de controle de esfíncteres) — emergência cirúrgica
  • Osteoporose grave — risco de fratura vertebral durante a manipulação
  • Tumores ou metástases na coluna — contraindicação absoluta
  • Infecção espinhal (espondilodiscite) — contraindicação absoluta
  • Instabilidade vertebral (espondilolistese de alto grau) — risco de piora
  • Histórico de AVC ou dissecção arterial — nunca manipular a cervical

Fontes e Referências

1. Rubinstein SM et al. Spinal manipulative therapy for chronic low-back pain. Cochrane Database Syst Rev, 2011;(2):CD008112. DOI: 10.1002/14651858.CD008112.pub2

2. Cassidy JD et al. Risk of vertebrobasilar stroke and chiropractic care. Stroke, 2008;39(2):516-521. DOI: 10.1161/STROKEAHA.107.504220

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8. Rubinstein SM et al. Benefits and harms of spinal manipulative therapy for the treatment of chronic low back pain: systematic review and meta-analysis. BMJ, 2019;364:l689. DOI: 10.1136/bmj.l689

9. Kawchuk GN et al. Real-time visualization of joint cavitation. PLoS ONE, 2015;10(4):e0119470. DOI: 10.1371/journal.pone.0119470

10. Mitra A, Azad HA, Prasad N, Shlobin NA, Cloney MB, Hopkins BS, et al. Chiropractic associated vertebral artery dissection: An analysis of 34 patients amongst a cohort of 310. Clin Neurol Neurosurg. 2021;206:106665.

Atendimento em Itumbiara/GO

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião. Rua João Manoel de Souza, 881, Itumbiara/GO. Tel: (64) 99297-1512.