TENS, Laser e Ultrassom: Como a Eletroterapia Ajuda na Dor da Coluna

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

TENS, laser de baixa intensidade, ultrassom terapêutico e correntes interferenciais: entenda como funcionam, o nível de evidência de cada um e quando são indicados. Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO.

TENS, Laser e Ultrassom: Como a Eletroterapia Ajuda na Dor da Coluna

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

A eletroterapia engloba um conjunto de modalidades físicas que utilizam energia elétrica, luminosa ou sonora para tratar a dor, reduzir a inflamação, acelerar a cicatrização e modular o tônus muscular. Na reabilitação da coluna vertebral, modalidades como TENS, laser de baixa intensidade (fotobiomodulação) e ultrassom terapêutico são amplamente utilizadas como coadjuvantes da cinesioterapia (exercícios). Embora nenhuma delas substitua o fortalecimento muscular e a correção postural, elas desempenham um papel importante no controle da dor — especialmente nas fases iniciais da reabilitação, quando a dor limita a capacidade do paciente de realizar exercícios.

Entretanto, a evidência científica para essas modalidades é heterogênea: enquanto o TENS tem suporte moderado para analgesia de curto prazo, o laser de baixa intensidade e o ultrassom terapêutico apresentam resultados mais variáveis na literatura. Este artigo do Dr. Marcelo Lamberti analisa cada modalidade com base nas melhores evidências disponíveis, explicando como funcionam, quando são indicadas e qual o nível de evidência para cada uma.

"Eletroterapia sozinha não resolve dor na coluna. Mas quando usada de forma estratégica — para permitir que o paciente faça exercícios que não conseguia por causa da dor — ela tem grande valor."

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião | Atuação em Dor · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222

Pontos-chave deste artigo

  • ✓O TENS é a modalidade com melhor evidência para analgesia de curto prazo na dor lombar
  • ✓Existem 3 modos de TENS (convencional, burst e acupuntura-like), cada um com mecanismo diferente
  • ✓A fotobiomodulação (laser) atua em nível celular, estimulando mitocôndrias e reduzindo inflamação
  • ✓O ultrassom terapêutico pode ser contínuo (térmico) ou pulsado (não-térmico), com indicações diferentes
  • ✓Nenhuma eletroterapia substitui exercícios — são coadjuvantes, não tratamento principal
  • ✓A corrente interferencial penetra mais profundamente que o TENS e é indicada para dor profunda

TENS — Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea

O TENS é provavelmente a modalidade de eletroterapia mais utilizada no mundo. Funciona através da aplicação de corrente elétrica de baixa voltagem por meio de eletrodos de superfície posicionados na pele, na região dolorosa ou ao longo de trajetos nervosos. Sua eficácia baseia-se em dois mecanismos neurofisiológicos fundamentais, dependendo do modo utilizado:

TENS Convencional (alta frequência)

Parâmetros: frequência de 80-150 Hz, largura de pulso de 50-80 microsegundos, intensidade sensorial (formigamento confortável sem contração muscular).

Mecanismo: baseia-se na Teoria da Comporta da Dor (Melzack & Wall, 1965). A estimulação de fibras nervosas aferentes de grande diâmetro (A-beta) "fecha" a comporta no corno dorsal da medula espinhal, inibindo a transmissão de sinais dolorosos pelas fibras C (finas, lentas) ao cérebro. É como "ocupar a linha telefônica" do sistema nervoso com um sinal benigno, impedindo que o sinal de dor chegue ao cérebro.

Início/duração do efeito: alívio rápido (dentro de minutos), mas de curta duração (efeito dura enquanto a estimulação estiver ligada, mais 30-60 minutos após). Por isso, sessões de 30-60 minutos são recomendadas.

TENS tipo Acupuntura (baixa frequência)

Parâmetros: frequência de 2-4 Hz, largura de pulso de 150-200 microsegundos, intensidade motora (provoca contração muscular visível, mas tolerável).

Mecanismo: estimula a liberação de endorfinas e encefalinas endógenas (opioides naturais do corpo) no corno dorsal da medula e na substância cinzenta periaquedutal. O efeito é mediado por receptores opioides, razão pela qual pode ser parcialmente revertido por naloxona.

Início/duração do efeito: início mais lento (20-30 minutos), mas efeito mais duradouro (pode persistir por horas após a sessão). Sessões de 20-30 minutos.

TENS Burst (trens de pulso)

Parâmetros: trens de pulsos de alta frequência (70-100 Hz internamente) disparados a uma frequência de 2-4 Hz, intensidade motora.

Mecanismo: combina ambos os mecanismos — comporta da dor (alta frequência dos pulsos) e liberação de endorfinas (baixa frequência dos trens). É considerado o modo mais confortável que produz contrações musculares.

Indicação: boa opção quando o paciente necessita de analgesia mais duradoura, mas não tolera a intensidade necessária no modo acupuntura.

Evidência científica: uma revisão Cochrane (Khadilkar et al., 2008) e metanálises subsequentes concluíram que o TENS proporciona alívio de dor a curto prazo para lombalgia, com nível de evidência moderado. O benefício é mais consistente quando usado como coadjuvante de um programa de exercícios, e não como tratamento isolado. As diretrizes do NICE (National Institute for Health and Care Excellence, 2016) recomendam o TENS como opção para manejo da dor lombar crônica.

Laser de baixa intensidade (fotobiomodulação / LLLT)

A fotobiomodulação — anteriormente chamada de LLLT (Low-Level Laser Therapy) — utiliza luz coerente e monocromática (laser) ou não-coerente (LED) em comprimentos de onda entre 600 e 1100 nm para modular processos biológicos celulares. Os lasers terapêuticos mais utilizados na reabilitação da coluna operam em dois comprimentos de onda: vermelho (660 nm), com penetração superficial (pele e tecidos subcutâneos), e infravermelho próximo (808-904 nm), com penetração mais profunda (músculos e articulações).

Mecanismo de ação

A luz do laser é absorvida pela citocromo c oxidase, uma enzima da cadeia respiratória mitocondrial. Essa absorção desencadeia uma cascata de eventos intracelulares: aumento da produção de ATP (energia celular), modulação de espécies reativas de oxigênio (ROS), liberação de óxido nítrico (vasodilatador), ativação de fatores de transcrição e modulação de mediadores inflamatórios (redução de IL-1, IL-6, TNF-alfa e aumento de IL-10 anti-inflamatória).

Na prática clínica, esses mecanismos se traduzem em: redução da inflamação local, analgesia (por modulação de fibras nociceptivas e redução de prostaglandinas), aceleração da cicatrização tecidual (por estimulação da proliferação fibroblástica) e efeito antiedema (por aumento da drenagem linfática).

Evidência científica: a evidência para fotobiomodulação na dor lombar é mista. Uma revisão sistemática de Huang et al. (2015) concluiu que a LLLT pode reduzir a dor lombar a curto prazo, com efeitos mais consistentes quando combinada com exercícios. Porém, a heterogeneidade dos protocolos (dosimetria variável) dificulta conclusões definitivas. As diretrizes da World Association for Photobiomodulation Therapy (WALT) recomendam doses de 4-8 J/cm² por ponto para condições musculoesqueléticas, com múltiplos pontos de aplicação.

Ultrassom terapêutico

O ultrassom terapêutico utiliza ondas sonoras de alta frequência (1-3 MHz) para produzir efeitos térmicos e não-térmicos nos tecidos profundos. A frequência de 1 MHz penetra até 3-5 cm de profundidade (ideal para estruturas mais profundas como a coluna lombar) e a de 3 MHz atinge até 1-2 cm (mais superficial).

Modo contínuo (efeito térmico)

O feixe de ultrassom é emitido continuamente, gerando aquecimento profundo dos tecidos (1-4°C). Indicado para condições crônicas: reduz a rigidez articular, aumenta a extensibilidade do colágeno, melhora a circulação local e promove relaxamento muscular. Doses típicas: 1,0-2,0 W/cm² em modo contínuo, por 5-10 minutos por área.

Modo pulsado (efeito não-térmico)

O ultrassom é emitido em pulsos com intervalos de silêncio, minimizando o aquecimento. Os efeitos são mecânicos: cavitação estável (formação de microbolhas que oscilam e estimulam membranas celulares), correntes acústicas (microfluxos ao redor das microbolhas que aumentam a permeabilidade celular) e efeito piezoelétrico (estimula a atividade celular em tecidos como osso e tendão). Indicado para condições agudas e subagudas, onde o calor seria contraindicado. Doses: 0,5-1,0 W/cm² pulsado (20-50% duty cycle).

Evidência científica: a evidência para o ultrassom terapêutico na dor lombar é fraca a moderada. Uma revisão Cochrane (Ebadi et al., 2014) concluiu que o ultrassom terapêutico tem efeito pequeno na dor lombar crônica a curto prazo, mas sem evidência de superioridade sobre placebo a longo prazo. Apesar de amplamente utilizado, é considerado uma das modalidades com menor evidência de eficácia para dor na coluna. Seu papel é mais fundamentado na facilitação de outras terapias — por exemplo, aplicar ultrassom contínuo antes de alongar uma musculatura encurtada.

Corrente interferencial (IFC) e corrente russa

Corrente interferencial (IFC)

A corrente interferencial utiliza duas correntes de média frequência (geralmente 4.000 Hz) levemente diferentes entre si (por exemplo, 4.000 Hz e 4.100 Hz) que se cruzam dentro do tecido, gerando uma "frequência de batimento" na diferença entre as duas (100 Hz no exemplo). A vantagem sobre o TENS é que correntes de média frequência penetram mais profundamente nos tecidos com menor resistência da pele e menor desconforto — ideal para estruturas profundas da coluna. Os mecanismos de analgesia são semelhantes ao TENS convencional (teoria da comporta), com o benefício adicional do alcance mais profundo.

Corrente Russa (Estimulação Neuromuscular Elétrica — NMES)

Desenvolvida por Yakov Kots na década de 1970 na União Soviética, a corrente russa utiliza pulsos de 2.500 Hz modulados a 50 Hz para produzir contrações musculares potentes com menor desconforto. Na reabilitação da coluna, pode ser utilizada para combater a atrofia dos multífidos e dos eretores da espinha, especialmente em pacientes pós-operatórios que têm dificuldade de ativação voluntária. A NMES não substitui o exercício ativo, mas pode ser um complemento útil nas fases iniciais quando a inibição reflexa por dor impede a contração muscular voluntária adequada.

"Na minha prática, a eletroterapia é como o andaime de uma construção — essencial durante a obra, mas não é a obra em si. O TENS alivia a dor para que o paciente consiga fazer os exercícios. O laser reduz a inflamação para que o tecido cicatrize melhor. Mas o que realmente sustenta o resultado a longo prazo é o fortalecimento muscular."
Dr. Marcelo Lamberti

Resumo comparativo das modalidades

TENS

Nível de evidência: Moderado | Analgesia: Boa (curto prazo) | Anti-inflamatório: Mínimo | Custo: Baixo | Acessibilidade: Aparelho portátil para uso domiciliar

Fotobiomodulação (Laser/LED)

Nível de evidência: Moderado a baixo | Analgesia: Moderada | Anti-inflamatório: Bom | Custo: Moderado | Acessibilidade: Uso em clínica apenas

Ultrassom terapêutico

Nível de evidência: Fraco a moderado | Analgesia: Fraca | Anti-inflamatório: Moderado (pulsado) | Custo: Moderado | Acessibilidade: Uso em clínica apenas

Corrente interferencial

Nível de evidência: Moderado | Analgesia: Boa (profunda) | Anti-inflamatório: Mínimo | Custo: Moderado | Acessibilidade: Uso em clínica apenas

Fontes e Referências Científicas

1. Khadilkar A, et al. Transcutaneous electrical nerve stimulation (TENS) versus placebo for chronic low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2008;(4):CD003222.

2. Melzack R, Wall PD. Pain mechanisms: a new theory. Science. 1965;150(3699):971-979.

3. Ebadi S, et al. Therapeutic ultrasound for chronic low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(3):CD001824.

4. Huang Z, et al. The effectiveness of low-level laser therapy for nonspecific chronic low back pain: a systematic review and meta-analysis. Arthritis Res Ther. 2015;17:360.

5. Glazov G, et al. Low-level laser therapy for chronic non-specific low back pain: a meta-analysis of randomised controlled trials. Acupunct Med. 2016;34(5):328-341.

6. Fuentes JP, et al. Effectiveness of interferential current therapy in the management of musculoskeletal pain: a systematic review. Phys Ther. 2010;90(9):1219-1238.

7. Gibson W, et al. Transcutaneous electrical nerve stimulation (TENS) for chronic pain — an overview of Cochrane Reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2019;(4):CD011890.

8. Chow RT, et al. Efficacy of low-level laser therapy in the management of neck pain: a systematic review and meta-analysis of randomised placebo or active-treatment controlled trials. Lancet. 2009;374(9705):1897-1908.

9. Vance CG, et al. Using TENS for pain control: the state of the evidence. Pain Manag. 2014;4(3):197-209.

10. Bjordal JM, et al. A systematic review of low level laser therapy with location-specific doses for pain from chronic joint disorders. Aust J Physiother. 2003;49(2):107-116.

Atendimento em Itumbiara/GO

Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião. Rua João Manoel de Souza, 881, Itumbiara/GO. Tel: (64) 99297-1512.