Hidrocefalia: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento Cirúrgico
A hidrocefalia pode afetar desde recém-nascidos até idosos. Entenda como a válvula de derivação funciona e por que é frequentemente confundida com Alzheimer. Agende com o Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião com atuação em dor em Itumbiara/GO.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.
A hidrocefalia é definida pelo acúmulo anormal de líquido cefalorraquidiano (LCR) nos ventrículos cerebrais, levando à sua dilatação e, na maioria dos casos, ao aumento da pressão intracraniana. O LCR é produzido continuamente pelos plexos coróides, cerca de 500 ml por dia, e absorvido pelas vilosidades aracnóideas e pelo sistema glinfático. Qualquer desequilíbrio nesse sistema, seja por obstrução na circulação, déficit de absorção ou, raramente, superprodução, resulta em hidrocefalia. No Brasil, a prevalência estimada é de 1 a 1,5 caso por 1.000 nascidos vivos para a forma congênita, e a doença também afeta adultos e idosos por causas adquiridas.
"Hidrocefalia de pressão normal em idosos é frequentemente confundida com Alzheimer. A diferença? Ela tem tratamento cirúrgico que pode reverter os sintomas."
Dr. Marcelo Lamberti
A hidrocefalia é classificada de diversas formas, mas a divisão mais clinicamente útil é entre obstrutiva (não comunicante), na qual há bloqueio físico na circulação do LCR dentro do sistema ventricular (por tumor, estenose do aqueduto de Sylvius, hemorragia), e comunicante, na qual a obstrução está fora do sistema ventricular, na absorção pelas granulações aracnóideas (após hemorragia subaracnóidea, meningite ou idiopática). Outro tipo importante é a hidrocefalia ex-vacuo, na qual há dilatação ventricular compensatória por atrofia do parênquima cerebral. Não é uma hidrocefalia verdadeira e não requer tratamento do LCR.
Apresentação Clínica por Faixa Etária
Em recém-nascidos e lactentes, o crânio ainda não está fechado e pode expandir, então o principal sinal é o aumento progressivo do perímetro cefálico além do percentil normal. Outros sinais incluem fontanela anterior tensa e abaulada, veias do couro cabeludo proeminentes, irritabilidade, choro agudo, dificuldade de sucção e o sinal do "sol poente", com desvio do olhar para baixo com exposição da esclera. Em crianças maiores e adultos jovens, com o crânio fechado, a hidrocefalia manifesta-se com sinais de hipertensão intracraniana: cefaleia matinal progressiva (piora ao deitar e ao tossir), náuseas e vômitos em jato, papiledema ao fundo de olho, diplopia por paralisia do nervo abducente, e sonolência progressiva. Em idosos, a forma mais insidiosa é a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN), que apresenta a tríade de Adams-Hakim: distúrbio da marcha (arrastada, de base larga, "como se os pés estivessem colados ao chão"), incontinência urinária de urgência e declínio cognitivo (lentidão de raciocínio, déficit de atenção e memória). Esta tríade é frequentemente confundida com Alzheimer ou Parkinson, um erro que priva o paciente de tratamento curativo.
"A hidrocefalia de pressão normal é uma das causas mais subestimadas de demência em idosos, frequentemente confundida com Alzheimer. Ao contrário do Alzheimer, ela tem tratamento cirúrgico altamente eficaz. A derivação ventrículo-peritoneal pode reverter completamente os sintomas. Por isso, todo idoso com declínio cognitivo associado a dificuldade de marcha deve ser avaliado por um neurocirurgião." - Dr. Marcelo Lamberti

O tratamento cirúrgico da hidrocefalia pode reverter completamente os sintomas em muitos pacientes
Diagnóstico: Neuroimagem e Testes Funcionais
A tomografia computadorizada (TC) de crânio é o exame inicial para detecção da hidrocefalia. É rápida, acessível e eficaz para medir o índice de Evans (razão entre diâmetro ventricular e diâmetro craniano; acima de 0,3 sugere hidrocefalia). A ressonância magnética oferece maior detalhamento: avalia o fluxo de LCR pelo aqueduto de Sylvius (cinefase), identifica causas estruturais (tumor, estenose), e avalia o padrão de atrofia cortical. Para HPN em idosos, o teste de derivação externa (punção lombar com retirada de 40 a 50 ml de LCR e avaliação da melhora da marcha nas horas seguintes) é preditivo da resposta à cirurgia. A monitoração contínua da pressão intracraniana pode ser necessária em casos duvidosos.
Tratamento Cirúrgico: Derivações e Endoscopia
O tratamento definitivo da hidrocefalia é cirúrgico. A derivação ventrículo-peritoneal (DVP) é o procedimento mais realizado: um cateter é inserido no ventrículo lateral, conectado a uma válvula programável no crânio e a um cateter distal que drena o LCR na cavidade peritoneal, onde é absorvido. Válvulas de pressão ajustável (por campo magnético externo) permitem regulagem não invasiva do fluxo. A DVP tem excelentes resultados, mas pode complicar com obstrução, infecção ou subdrenagem. A ventriculostomia endoscópica do terceiro ventrículo (VET) é uma alternativa para hidrocefalias obstrutivas: um endoscópio é introduzido pelo ventrículo lateral, e uma abertura é criada no assoalho do terceiro ventrículo, criando uma via alternativa de circulação do LCR, sem implante de material estranho. Tem menor taxa de complicações infecciosas e é preferida em crianças acima de 6 meses com hidrocefalia obstrutiva.
Fontes e Referências
- • Rekate HL. The definition and classification of hydrocephalus: a personal recommendation to stimulate debate. Cerebrospinal Fluid Res. 2008;5:2.
- • Williams MA, Malm J. Diagnosis and Treatment of Idiopathic Normal Pressure Hydrocephalus. Continuum (Minneap Minn). 2016;22(2):579-599.
- • Relkin N, Marmarou A, Klinge P, Bergsneider M, Black PM. Diagnosing idiopathic normal-pressure hydrocephalus. Neurosurgery. 2005;57(3 Suppl):S4-16.
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