Neuralgia do Trigêmeo: A Dor Mais Intensa e Como Tratá-la
Considerada a pior dor que um ser humano pode sentir. Saiba como o diagnóstico é feito e por que a cirurgia de descompressão microvascular pode curar definitivamente. Agende com o Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião com atuação em dor em Itumbiara/GO.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.
A neuralgia do trigêmeo (NT) é frequentemente descrita como "a pior dor que um ser humano pode experimentar", e essa afirmação não é exagero. A Classificação Internacional de Cefaleias (ICHD-3) descreve a NT como episódios de dor facial aguda, tipo choque elétrico, lancinante ou em facada, de início e fim abruptos, com duração de milissegundos a 2 minutos, distribuída pelo território do nervo trigêmeo (V par craniano). A incidência é de aproximadamente 4 a 13 casos por 100 mil habitantes por ano, com predomínio em mulheres e maiores de 50 anos, embora possa ocorrer em qualquer idade. O impacto na qualidade de vida é devastador: muitos pacientes entram em depressão grave, isolamento social e têm pensamentos suicidas por não conseguirem suportar a dor.
"Nenhum paciente precisa conviver com a dor da neuralgia do trigêmeo. Ela é tratável, e em muitos casos, de forma definitiva."
Dr. Marcelo Lamberti
O trigêmeo é o maior nervo craniano, responsável pela sensibilidade de toda a face e das mucosas oral e nasal, e pela função motora dos músculos da mastigação. Divide-se em três ramos: oftálmico (V1, fronte e olho), maxilar (V2, bochecha e lábio superior) e mandibular (V3, queixo, lábio inferior e mandíbula). Na NT clássica, os ramos V2 e V3, isolados ou combinados, são os mais afetados. A dor é unilateral (mais frequentemente à direita), e existe uma zona-gatilho (trigger zone) característica: lavar o rosto, escovar os dentes, mastigar, falar, sorrir ou até uma leve brisa no rosto podem desencadear a crise. Nos intervalos, o paciente fica completamente assintomático, o que distingue a NT de outras dores faciais crônicas.
Causa: Compressão Neurovascular e Diagnóstico Diferencial
Em mais de 80% dos casos, a NT é causada pela compressão do nervo trigêmeo na sua zona de entrada na ponte por um vaso sanguíneo, geralmente a artéria cerebelar superior ou a artéria cerebelar anteroinferior (AICA). Essa compressão causa desmielinização focal da bainha de mielina, gerando um tipo de dor neuropática com disparos ectópicos espontâneos e transmissão efáptica anormal entre fibras nervosas. A RM com cortes finos protocolados para o ângulo ponto-cerebelar (sequências FIESTA/CISS) identifica o contato neurovascular em 90% dos casos, sendo fundamental para o diagnóstico e planejamento cirúrgico. É essencial descartar causas secundárias da NT: a esclerose múltipla pode causar NT em adultos jovens pela desmielinização da raiz trigeminal; tumores (meningioma, schwannoma, colesteatoma) no ângulo ponto-cerebelar; e malformações vasculares. A NT sintomática por essas causas responde menos ao tratamento cirúrgico convencional.
"A neuralgia do trigêmeo é tratável, e tratável de forma definitiva. Com a cirurgia de descompressão microvascular, mais de 80% dos pacientes ficam completamente livres da dor por anos, sem necessidade de medicação contínua. Nenhum paciente precisa conviver com essa dor. O diagnóstico correto e o encaminhamento para o especialista certo mudam completamente a trajetória da doença." - Dr. Marcelo Lamberti

A neuralgia do trigêmeo tem tratamento eficaz, desde medicamentos até cirurgia de descompressão microvascular
Tratamento Medicamentoso: Carbamazepina e Alternativas
A carbamazepina é o medicamento de primeira linha para NT, com nível de evidência A nas diretrizes internacionais. Age estabilizando membranas neuronais pelo bloqueio de canais de sódio, reduzindo os disparos ectópicos no trigêmeo. É eficaz em 70 a 80% dos pacientes inicialmente, mas com perda de eficácia ao longo do tempo e efeitos adversos frequentes (sonolência, hiponatremia, reações alérgicas). A oxcarbazepina tem perfil de tolerabilidade melhor. Outros anticonvulsivantes como lamotrigina, gabapentina, pregabalina e baclofeno são usados como adjuvantes ou quando há intolerância à carbamazepina. A medicação é um controle sintomático e não trata a causa. Quando falha ou causa efeitos intoleráveis, o tratamento intervencionista ou cirúrgico é indicado.
Cirurgia de Jannetta e Outros Procedimentos
A descompressão microvascular (DMV), descrita por Peter Jannetta na década de 1960 e amplamente aperfeiçoada desde então, é o tratamento cirúrgico mais eficaz e duradouro para NT. Por uma craniotomia retroauricular mínima, o neurocirurgião identifica o vaso compressor e o afasta do nervo com um pequeno fragmento de Teflon. Taxas de remissão completa da dor em 80 a 90% no pós-operatório imediato, com manutenção em 70 a 75% dos pacientes em 10 anos. Para pacientes com contraindicação cirúrgica (idosos com comorbidades graves), procedimentos percutâneos são alternativas eficazes: rizotomia por radiofrequência (destruição controlada do gânglio de Gasser), compressão por balão do gânglio de Gasser, ou injeção de glicerol. A radiocirurgia estereotáxica (Gamma Knife) tem menor taxa de remissão imediata, mas é minimamente invasiva e pode ser repetida.
Fontes e Referências
- • Cruccu G, Finnerup NB, Jensen TS, et al. Trigeminal neuralgia: New classification and diagnostic grading. Neurology. 2016;87(2):220-228.
- • Barker FG 2nd, Jannetta PJ, Bissonette DJ, Larkins MV, Jho HD. The long-term outcome of microvascular decompression for trigeminal neuralgia. N Engl J Med. 1996;334(17):1077-1083.
- • Bendtsen L, Zakrzewska JM, Abbott J, et al. European Academy of Neurology guideline on trigeminal neuralgia. Eur J Neurol. 2019;26(6):831-849.
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