Convulsão Febril em Crianças: O Que Fazer e Quando é Grave

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

A convulsão febril atinge até 5% das crianças entre 6 meses e 5 anos. Embora assustadora, na maioria das vezes é benigna. Saiba como agir e quando buscar avaliação neurológica. Dr. Marcelo Lamberti em Itumbiara/GO.

Convulsão Febril em Crianças: O Que Fazer e Quando é Grave

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

Pontos-chave deste artigo

  • A convulsão febril afeta 2-5% das crianças entre 6 meses e 5 anos — na maioria das vezes é benigna
  • Simples (70-80%): generalizada, menos de 15 minutos, risco de epilepsia apenas 1-2%
  • Durante a crise: de lado, proteger cabeça, NÃO colocar nada na boca, cronometrar — SAMU 192 se passar de 5 min
  • Antipiréticos NÃO previnem recorrência — o que importa é a velocidade da elevação da temperatura

A convulsão febril é o evento convulsivo mais comum na infância, afetando entre 2% e 5% das crianças entre 6 meses e 5 anos de idade. Apesar de extremamente assustadora para os pais, a convulsão febril simples é geralmente benigna e autolimitada, não causando dano cerebral nem aumentando significativamente o risco de epilepsia. Ela ocorre durante a fase de elevação rápida da temperatura (geralmente acima de 38°C), não pela febre alta em si — o que importa é a velocidade da elevação, não o pico. O cérebro imaturo da criança pequena tem um limiar convulsivo mais baixo (receptores GABA ainda imaturos, proporção glutamato/GABA mais alta), tornando-o suscetível a descargas elétricas desencadeadas pela febre.

"A convulsão febril é o evento neurológico que mais assusta os pais — muitos acham que o filho está morrendo. Mas na grande maioria das vezes, é benigna. O mais importante é manter a calma e proteger a criança."

Dr. Marcelo Lamberti

Epidemiologia e Genética

A convulsão febril tem forte componente genético: o risco é de 10-20% quando um irmão já teve convulsão febril e 25-40% quando ambos os pais tiveram na infância. Padrão de herança: provavelmente poligênico, mas famílias com padrão autossômico dominante já foram identificadas (mutações em SCN1A, SCN1B, GABRG2). Crianças com histórico de convulsão febril têm 30-35% de chance de recorrência. Fatores de risco para recorrência: idade <18 meses na primeira crise, temperatura relativamente baixa no episódio (<39°C), intervalo curto entre início da febre e a convulsão, e histórico familiar positivo. A maioria das recorrências ocorre nos primeiros 12 meses após o primeiro episódio.

Simples vs. Complexa: Classificação e Prognóstico

Convulsão febril simples (70-80% dos casos): generalizada (tônico-clônica bilateral simétrica), duração <15 minutos, não se repete em 24 horas, criança se recupera completamente em 60 minutos. Risco de epilepsia futura: 1-2% (vs 0.5-1% da população geral — aumento mínimo).

Convulsão febril complexa (20-30%): uma ou mais das seguintes características — focal (inicia em um lado do corpo — pode indicar lesão cerebral unilateral), prolongada (duração >15 minutos — risco de estado de mal febril), repetida (mais de um episódio em 24 horas), ou seguida de déficit neurológico transitório (paralisia de Todd — fraqueza em um hemicorpo por minutos a horas). Risco de epilepsia: 4-12%, dependendo do número de fatores de risco. Convulsões febris prolongadas (>30 min) podem, em raros casos, causar esclerose mesial temporal (lesão hipocampal) — base do estudo FEBSTAT.

O Que Fazer Durante a Crise: Guia Prático

1. MANTER A CALMA — a crise parece muito pior do que é. Verifique o horário (cronometrar a duração é crucial). 2. POSIÇÃO DE SEGURANÇA — coloque a criança de lado (posição de recuperação) em superfície firme para evitar aspiração de saliva ou vômito. 3. PROTEGER A CABEÇA — afaste objetos duros, coloque algo macio sob a cabeça. 4. AFROUXAR ROUPAS apertadas no pescoço. 5. NÃO introduza objetos na boca — a criança NÃO vai "engolir a língua" (mito perigoso que causa lesões dentárias). 6. NÃO segure ou restrinja os movimentos convulsivos. 7. NÃO dê banho gelado, álcool ou compressas frias — não interrompem a crise e podem causar hipotermia e vasoconstrição. 8. NÃO tente dar medicamento oral durante a crise (risco de aspiração). 9. Se a crise durar mais de 5 minutos → SAMU 192 — pode ser necessário diazepam retal (0.5 mg/kg) ou midazolam bucal/intranasal. 10. Após a crise: a criança ficará sonolenta (período pós-ictal) — isso é normal. Leve ao pronto-socorro para avaliação, especialmente se for o primeiro episódio.

Investigação: Quando Fazer e Quando Não Fazer

Convulsão febril simples em criança >12 meses, com exame neurológico normal e fonte clara de infecção: NÃO é necessário EEG, neuroimagem nem punção lombar. A investigação foca em identificar e tratar a causa da febre (otite, amigdalite, ITU, virose). Indicações de punção lombar: menores de 6 meses (sinais meníngeos são pouco confiáveis), sinais clínicos de meningite (rigidez de nuca, fontanela abaulada, letargia extrema, petéquias), vacinação incompleta contra pneumococo e Haemophilus, uso recente de antibióticos (pode mascarar meningite). Indicações de neuroimagem: convulsão febril focal persistente, déficit neurológico novo, macrocefalia, sinais de hipertensão intracraniana. Indicações de EEG: convulsão febril complexa recorrente, suspeita de epilepsia (crises afebris intercaladas).

Prevenção e Orientação aos Pais

A profilaxia contínua com anticonvulsivantes NÃO é recomendada rotineiramente — os riscos dos medicamentos (sedação, efeitos cognitivos do fenobarbital) superam o benefício. Para crianças com recorrências muito frequentes ou crises prolongadas, o diazepam retal (Valium, 0.5 mg/kg — máximo 10mg) pode ser prescrito para uso domiciliar pelos pais como "resgate" quando a crise ultrapassa 5 minutos. O midazolam bucal (aplicado entre gengiva e bochecha) é uma alternativa mais prática que está ganhando espaço. O antitérmico (ibuprofeno 10 mg/kg ou paracetamol 15 mg/kg) deve ser dado para conforto da criança quando tem febre, mas NÃO previne a recorrência de convulsões febris — múltiplos estudos randomizados confirmaram isso.

Orientação fundamental aos pais: a convulsão febril simples NÃO causa dano cerebral, NÃO causa epilepsia na grande maioria dos casos e NÃO diminui a inteligência da criança. A maioria das crianças supera a fase de suscetibilidade até os 5-6 anos e nunca mais terá convulsões. Anote e filme (se possível) as características da crise para mostrar ao neurologista — a descrição detalhada é essencial para classificação. No Instagram @neurodor.marcelolamberti, publicamos regularmente orientações visuais sobre primeiros socorros em convulsões.

"Oriento todos os pais de crianças com convulsão febril a terem um plano de ação claro: saber como posicionar a criança, não colocar nada na boca, cronometrar e filmar se possível. Se passar de 5 minutos, é emergência — SAMU 192. Essa orientação simples salva vidas." - Dr. Marcelo Lamberti

Fontes e Referências

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