Epilepsia Infantil: Diagnóstico, Tratamento e Qualidade de Vida

Por Dr. Marcelo Oliveira Lamberti · CRM/GO 28.236 | RQE 15.222 ·

A epilepsia é o distúrbio neurológico mais comum na infância, afetando 1 em cada 100 crianças. Saiba como diagnosticar, tratar e quando considerar cirurgia. Acompanhamento com o Dr. Marcelo Lamberti, neurocirurgião em Itumbiara/GO.

Epilepsia Infantil: Diagnóstico, Tratamento e Qualidade de Vida

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.

Pontos-chave deste artigo

  • A epilepsia afeta 1 em cada 100 crianças — 70% dos casos são controlados com medicação
  • Síndromes como Rolândica têm remissão espontânea; síndromes como Dravet exigem tratamento especializado
  • Quando 2 medicações falham, a criança deve ser avaliada para cirurgia de epilepsia (taxa de cura 70-80%)
  • Dieta cetogênica e estimulador do nervo vago (VNS) são opções para epilepsias refratárias

A epilepsia é o distúrbio neurológico crônico mais comum na infância, afetando aproximadamente 1 em cada 100 crianças até os 16 anos de idade. No Brasil, estima-se que existam cerca de 3,5 milhões de pessoas com epilepsia, das quais mais de um terço são crianças e adolescentes. A doença se caracteriza pela predisposição do cérebro a gerar crises epilépticas recorrentes, que resultam de descargas elétricas anormais e excessivas dos neurônios. Embora assustadoras para os pais, a maioria das epilepsias infantis tem bom prognóstico: cerca de 70% dos casos são controlados adequadamente com medicação, e muitas formas desaparecem espontaneamente na adolescência.

"A epilepsia na criança não é uma sentença. Com diagnóstico correto e tratamento adequado, a grande maioria das crianças leva uma vida normal, frequenta escola e pratica esportes."

Dr. Marcelo Lamberti

As crises epilépticas na infância podem se manifestar de formas muito variadas, o que dificulta o diagnóstico. Nem toda crise é uma convulsão com movimentos tônico-clônicos generalizados. Crianças podem apresentar crises de ausência (olhar fixo por segundos, como se "desligasse"), mioclonias (abalos súbitos), crises focais com automatismos (movimentos repetitivos de mãos ou boca) ou episódios atônicos (queda súbita por perda de tônus muscular). A epilepsia rolândica benigna, a forma mais comum na infância, causa crises focais com formigamento e contrações da face e boca, frequentemente durante o sono, e tem remissão espontânea até os 15-16 anos.

Fisiopatologia: O Que Acontece no Cérebro

O cérebro normal funciona através de um equilíbrio delicado entre excitação e inibição neuronal. Na epilepsia, esse equilíbrio é rompido: grupos de neurônios começam a disparar de forma sincronizada e excessiva, gerando uma "tempestade elétrica" cerebral. Esse fenômeno envolve canais iônicos (sódio, potássio, cálcio) e neurotransmissores — principalmente o glutamato (excitatório) e o GABA (inibitório). No cérebro em desenvolvimento, há uma tendência natural à hiperexcitabilidade: os receptores GABA são menos maduros e os receptores de glutamato são mais abundantes, o que explica por que as crises são mais comuns na infância. As canalopatias genéticas — mutações em genes como SCN1A (síndrome de Dravet), KCNQ2 e SCN2A — são causas cada vez mais reconhecidas de epilepsias graves da infância.

Síndromes Epilépticas da Infância

A classificação da epilepsia em síndromes é fundamental porque determina o tratamento e o prognóstico. As principais síndromes incluem:

Epilepsia Rolândica Benigna (Epilepsia Centro-temporal): a mais comum na infância (15-25% de todas as epilepsias infantis). Início entre 3-13 anos, pico aos 7-9. Crises focais com formigamento perioral, salivação, dificuldade de fala, geralmente durante o sono. EEG mostra pontas centro-temporais. Remissão espontânea em 95% dos casos até os 16 anos. Pode não necessitar de tratamento se as crises são apenas durante o sono.

Epilepsia de Ausência da Infância (Petit Mal): início entre 4-8 anos, mais comum em meninas. Crises de ausência típicas: olhar fixo por 5-15 segundos, até 100 vezes ao dia. EEG clássico com descargas ponta-onda 3 Hz generalizadas. Resposta excelente a etossuximida ou valproato. Remissão na adolescência em 60-70% dos casos. Pode ser confundida com desatenção ou TDAH.

Síndrome de West (Espasmos Infantis): início entre 3-12 meses. Tríade: espasmos em flexão/extensão (séries ao acordar), hipsarritmia no EEG e atraso no desenvolvimento. É uma emergência neurológica — o tratamento precoce com vigabatrina ou ACTH melhora significativamente o prognóstico cognitivo. Causada por malformações cerebrais, esclerose tuberosa, asfixia perinatal ou causas genéticas.

Síndrome de Dravet: epilepsia grave que inicia no primeiro ano de vida com crises febris prolongadas, seguidas de crises afebris refratárias a múltiplas medicações. Causada por mutação no gene SCN1A em 80% dos casos. Atraso cognitivo e motor progressivo. Cuidado: carbamazepina e lamotrigina são contraindicadas pois podem agravar as crises. Novos tratamentos como cannabidiol (Epidiolex) e fenfluramina mostraram eficácia significativa.

Síndrome de Lennox-Gastaut: epilepsia grave com múltiplos tipos de crises (tônicas, atônicas, ausências atípicas), EEG com ponta-onda lenta generalizada e déficit cognitivo. Início entre 1-8 anos. Refratária à maioria dos medicamentos. Candidata a dieta cetogênica, VNS ou cirurgia (calosotomia para crises de queda).

Criança em consulta neurológica - avaliação de epilepsia infantil com EEG

O eletroencefalograma (EEG) é o exame fundamental para diagnóstico e classificação das síndromes epilépticas na infância

Diagnóstico: Eletroencefalograma e Neuroimagem

O eletroencefalograma (EEG) é o exame fundamental para o diagnóstico e classificação da epilepsia. Ele registra a atividade elétrica cerebral e pode identificar padrões específicos de cada síndrome epiléptica. Em crianças, o EEG com privação de sono e o vídeo-EEG prolongado são especialmente úteis. O EEG de rotina tem duração de 20-30 minutos e inclui hiperventilação e estimulação fótica. Um EEG normal não exclui epilepsia — até 50% dos EEGs interictais podem ser normais. Por isso, a repetição do exame ou o vídeo-EEG prolongado (24-72 horas) é frequentemente necessário.

A ressonância magnética (RM) de crânio é indicada para investigar a causa estrutural da epilepsia, como malformações corticais, esclerose hipocampal, tumores ou lesões vasculares. Em crianças com menos de 2 anos, a RM pode revelar displasias corticais focais que são a causa mais comum de epilepsia refratária cirurgicamente tratável nessa faixa etária. O protocolo de RM para epilepsia deve incluir sequências 3D T1 volumétrica, FLAIR com cortes finos pelo hipocampo e sequências de susceptibilidade magnética. Em epilepsias generalizadas idiopáticas com EEG típico (como ausência), a RM pode ser dispensada.

Tratamento Medicamentoso

O tratamento de primeira linha é farmacológico. Os anticonvulsivantes de nova geração como levetiracetam, lamotrigina e oxcarbazepina são preferidos na infância por seu melhor perfil de efeitos colaterais em comparação aos clássicos (fenobarbital, fenitoína). A escolha depende do tipo de crise e da síndrome epiléptica:

Para crises focais: oxcarbazepina (primeira escolha), carbamazepina, levetiracetam, lamotrigina. Para crises de ausência: etossuximida (primeira escolha), valproato, lamotrigina. Para crises tônico-clônicas generalizadas: valproato, levetiracetam, lamotrigina. Para espasmos infantis: vigabatrina (primeira escolha na esclerose tuberosa), ACTH/prednisolona. O tratamento deve ser mantido por pelo menos 2 anos sem crises antes de se considerar a retirada gradual da medicação, sempre com acompanhamento do EEG. A retirada deve ser lenta (6-12 meses) e feita sob supervisão do neurologista.

Tratamentos Não Medicamentosos

A dieta cetogênica é uma opção eficaz para epilepsias refratárias, especialmente em síndromes como Dravet, Lennox-Gastaut e deficiência de GLUT1. A dieta é rica em gorduras e pobre em carboidratos, forçando o cérebro a usar corpos cetônicos como fonte de energia. Estudos mostram redução de 50% ou mais nas crises em 50-60% dos pacientes. A dieta Atkins modificada é uma variante menos restritiva com eficácia similar. Ambas exigem acompanhamento nutricional rigoroso.

O estimulador do nervo vago (VNS) é um dispositivo implantado cirurgicamente no pescoço que envia estímulos elétricos ao nervo vago, reduzindo a excitabilidade cerebral. É indicado para epilepsias refratárias que não são candidatas à cirurgia ressectiva. Reduz as crises em 50% ou mais em cerca de 40-50% dos pacientes, com melhora progressiva ao longo dos anos.

Quando a Cirurgia É Indicada?

Cerca de 30% das epilepsias infantis são refratárias ao tratamento medicamentoso. Quando duas ou mais medicações adequadas em doses adequadas falham em controlar as crises, a criança deve ser avaliada em um centro de cirurgia de epilepsia. A avaliação pré-cirúrgica inclui vídeo-EEG prolongado, RM de alta resolução (3 Tesla com protocolo de epilepsia), testes neuropsicológicos e, em casos selecionados, PET-CT cerebral, SPECT ictal/interictal e SEEG (eletroencefalografia estereoguiada com eletrodos profundos).

As opções cirúrgicas incluem: ressecção da zona epileptogênica (lobectomia temporal, lesionectomia), hemisferectomia funcional (em epilepsias graves unilaterais como hemimegalencefalia, encefalite de Rasmussen ou sequela de AVC perinatal), calosotomia (para crises de queda na Lennox-Gastaut) e termocoagulação a laser guiada por RM (LITT) — uma técnica minimamente invasiva promissora. Em crianças com displasia cortical focal ou tumores de baixo grau, a taxa de cura cirúrgica pode ultrapassar 70-80%. O encaminhamento precoce para avaliação cirúrgica é essencial — a plasticidade do cérebro infantil favorece a recuperação funcional.

"A decisão pela cirurgia de epilepsia em crianças é sempre multidisciplinar. Mas quando há indicação clara, quanto mais cedo operamos, melhor o resultado — o cérebro infantil tem uma plasticidade extraordinária que favorece a recuperação funcional. Cada crise não controlada é uma oportunidade de desenvolvimento perdida." - Dr. Marcelo Lamberti

Qualidade de Vida, Escola e Esporte

A epilepsia bem controlada não deve impedir a criança de frequentar a escola, praticar esportes ou ter uma vida social normal. Atividades físicas são seguras e até benéficas — exercício regular pode reduzir a frequência de crises. Esportes aquáticos devem ter supervisão individual. Atividades em altura (escalada, rapel) exigem avaliação caso a caso. É fundamental que pais e professores sejam orientados sobre como agir durante uma crise: manter a calma, proteger a cabeça da criança, posicioná-la de lado, não introduzir objetos na boca e cronometrar a duração. Crises com duração superior a 5 minutos ou que se repetem sem recuperação da consciência configuram estado de mal epiléptico e são uma emergência médica — SAMU 192.

O impacto psicossocial da epilepsia na infância é significativo. Crianças com epilepsia têm maior risco de ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem e baixa autoestima. O estigma social ainda é uma barreira importante. Grupos de apoio para famílias e orientação psicológica devem fazer parte do tratamento integral. No Instagram @neurodor.marcelolamberti, o Dr. Marcelo compartilha regularmente informações sobre epilepsia infantil de forma acessível para pais e familiares.

Fontes e Referências

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