Cefaleia na Infância: Quando a Dor de Cabeça do Seu Filho Exige Atenção
Dor de cabeça em crianças é mais comum do que se imagina: 60% das crianças terão cefaleia antes dos 12 anos. Conheça os sinais de alerta e quando buscar avaliação neurológica. Dr. Marcelo Lamberti em Itumbiara/GO.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.
Pontos-chave deste artigo
- 60% das crianças terão cefaleia antes dos 12 anos — enxaqueca infantil é bilateral e de curta duração
- Equivalentes de enxaqueca (vômitos cíclicos, vertigem paroxística, enxaqueca abdominal) são peculiares da infância
- Red flags: cefaleia que acorda à noite, vômitos matinais, cefaleia progressiva — exigem neuroimagem
- Telas em excesso, privação de sono e jejum são os gatilhos mais comuns em crianças
A cefaleia na infância é uma queixa extremamente comum e muitas vezes subestimada. Estudos epidemiológicos mostram que 60% das crianças terão pelo menos um episódio significativo de dor de cabeça antes dos 12 anos, e cerca de 10% das crianças em idade escolar sofrem de enxaqueca. A cefaleia é a causa neurológica mais frequente de consulta pediátrica e a segunda causa de absenteísmo escolar relacionada à saúde. Diferente dos adultos, a enxaqueca na criança tende a ser bilateral (não unilateral), de menor duração (pode durar apenas 1-2 horas), e acompanhada de dor abdominal, palidez facial ("criança branca") e desejo intenso de dormir — após o sono, acorda sem dor.
"Dor de cabeça em criança não é frescura. É uma queixa que merece investigação cuidadosa, especialmente quando é recorrente, acorda a criança à noite ou vem acompanhada de vômitos matinais."
Dr. Marcelo Lamberti
Tipos de Cefaleia na Infância
A enxaqueca sem aura é o tipo mais comum de cefaleia primária na infância, seguida da cefaleia tensional. Características que diferenciam a enxaqueca infantil da adulta: a dor é frequentemente bifrontal ou bitemporal (não unilateral), a duração pode ser mais curta (1-72h vs 4-72h no adulto), a palidez é mais comum que a náusea, e a fotofobia/fonofobia pode se manifestar como comportamento (a criança vai para o quarto escuro) e não como queixa verbal.
As equivalentes de enxaqueca são condições peculiares da infância: a vertigem paroxística benigna (episódios súbitos de tontura com palidez e vômitos em crianças de 1-5 anos), os vômitos cíclicos (episódios estereotipados de vômitos intensos a cada 2-4 semanas, sem causa gastrointestinal), a enxaqueca abdominal (dor abdominal periumbilical recorrente com palidez e anorexia, duração 1-72h), e o torcicolo paroxístico benigno (inclinação episódica da cabeça em lactentes). Todas compartilham mecanismos com a enxaqueca e frequentemente evoluem para enxaqueca clássica na adolescência. A cefaleia tensional é tipicamente bilateral, em pressão/aperto, leve a moderada, sem náuseas significativas e sem piora com atividade física.
Sinais de Alerta (Red Flags)
A grande maioria das cefaleias infantis é primária (enxaqueca ou tensional) e benigna. Porém, alguns sinais exigem investigação urgente com neuroimagem (RM de crânio com contraste):
Sinais de hipertensão intracraniana: cefaleia que acorda a criança durante a noite ou está presente ao despertar, cefaleia matinal com vômitos em jato (sem náusea precedente), cefaleia progressiva que piora ao longo de semanas, cefaleia desencadeada por tosse, espirro ou esforço (Valsalva). Sinais neurológicos: alterações visuais persistentes (visão dupla, borrada, campo visual reduzido), fraqueza ou dormência em um lado do corpo, dificuldade de equilíbrio ou marcha, perda de coordenação, mudança de personalidade ou comportamento, queda no rendimento escolar. Outros alertas: cefaleia em criança menor de 5 anos (tumores de fossa posterior são mais frequentes nessa faixa), cefaleia de início súbito e muito intensa ("a pior dor de cabeça da vida" — pode indicar hemorragia), febre associada com rigidez de nuca (meningite), convulsão associada, e cefaleia que muda de padrão em criança com diagnóstico prévio de enxaqueca.
Gatilhos e Fatores de Risco na Infância
Os gatilhos mais comuns de cefaleia/enxaqueca na infância incluem: telas em excesso (tempo de tela acima de 2h/dia aumenta 2x a frequência de cefaleias), privação de sono (crianças precisam de 9-12h de sono por noite entre 6-12 anos), jejum prolongado (pular café da manhã é um dos gatilhos mais comuns), desidratação (crianças frequentemente bebem pouca água durante o dia escolar), estresse escolar (provas, bullying, pressão acadêmica), mudanças climáticas e barométricas, e em adolescentes, variações hormonais no ciclo menstrual. O diário de dor de cabeça (anotando frequência, duração, intensidade, localização, gatilhos e medicamentos usados) é ferramenta essencial para o diagnóstico e o planejamento do tratamento.
"A cefaleia na criança tem características próprias que diferem do adulto. O neurologista precisa conhecer essas particularidades para não subdiagnosticar a enxaqueca infantil nem deixar passar sinais de alerta que exigem investigação imediata. No meu Instagram, posto regularmente sobre como identificar esses sinais — siga para ficar informado." - Dr. Marcelo Lamberti
Tratamento Agudo e Preventivo
Tratamento agudo: o ibuprofeno (10 mg/kg, máx 400mg) é a primeira escolha na infância — mais eficaz que paracetamol segundo estudos comparativos. O paracetamol (15 mg/kg) é alternativa. Triptanos: sumatriptano nasal (10-20mg) é aprovado a partir dos 12 anos; rizatriptano (5-10mg) e zolmitriptano nasal são opções. Importante: tomar a medicação o mais cedo possível na crise. Uso de analgésicos mais de 10-15 dias/mês pode causar cefaleia por uso excessivo de medicação — armadilha comum na adolescência.
Tratamento preventivo (indicado quando crises ≥ 4/mês ou muito incapacitantes): flunarizina (5-10mg à noite — mais usada no Brasil), amitriptilina (0.25-1 mg/kg à noite), propranolol (1-2 mg/kg/dia — cuidado em asmáticos), topiramato (1-3 mg/kg/dia — atenção ao peso e cognição). O estudo CHAMP (2017, NEJM) mostrou que amitriptilina e topiramato não foram superiores ao placebo em crianças com enxaqueca — reforçando a importância das medidas não farmacológicas. Terapia cognitivo-comportamental (TCC) + biofeedback mostraram eficácia comparável à medicação preventiva em ensaios clínicos, com benefício sustentado.
Medidas não farmacológicas: higiene do sono (horário regular, ambiente escuro, sem telas 1h antes de dormir), atividade física regular (30-60 min/dia — reduz frequência de crises em 30-50%), hidratação adequada (1.5-2L/dia), alimentação regular (não pular refeições), redução do tempo de tela, técnicas de relaxamento e mindfulness, e manejo do estresse escolar.
Fontes e Referências
- • Abu-Arafeh I, Razak S, Sivaraman B, Graham C. Prevalence of headache and migraine in children and adolescents: a systematic review of population-based studies. Developmental Medicine & Child Neurology. 2010;52(12):1088-1097. DOI: 10.1111/j.1469-8749.2010.03793.x
- • Powers SW, Coffey CS, Chamberlin LA, et al. Trial of Amitriptyline, Topiramate, and Placebo for Pediatric Migraine. New England Journal of Medicine. 2017;376(2):115-124. DOI: 10.1056/NEJMoa1610384
- • Oskoui M, Pringsheim T, Billinghurst L, et al. Practice guideline update summary: Pharmacologic treatment for pediatric migraine prevention: Report of the AAN and the AHS. Neurology. 2019;93(11):500-509. DOI: 10.1212/WNL.0000000000008105
- • Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe). Cefaleia na Criança e no Adolescente — Consenso, 2022.
- • Blume HK. Childhood Headache: A Brief Review. Pediatric Annals. 2017;46(4):e155-e165. DOI: 10.3928/19382359-20170321-02
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Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião. Rua João Manoel de Souza, 881, Itumbiara/GO. Tel: (64) 99297-1512.