Hidrocefalia Infantil: Causas, Sintomas e Tratamento Cirúrgico
A hidrocefalia é o acúmulo excessivo de líquido cefalorraquidiano no cérebro. Em crianças, pode causar aumento do perímetro cefálico e atraso no desenvolvimento. Saiba como é o tratamento com válvula. Dr. Marcelo Lamberti em Itumbiara/GO.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada.
Pontos-chave deste artigo
- A hidrocefalia afeta 1 em cada 500 nascidos vivos — aumento acelerado do perímetro cefálico é o principal sinal
- O tratamento é cirúrgico: derivação ventrículo-peritoneal (DVP) ou terceiro ventriculostomia endoscópica (TVE)
- Válvulas programáveis permitem ajuste de pressão sem nova cirurgia
- Pais devem conhecer sinais de mau funcionamento da válvula: cefaleia, vômitos, sonolência — emergência
A hidrocefalia é o acúmulo excessivo de líquido cefalorraquidiano (LCR) dentro das cavidades cerebrais (ventrículos), causando aumento da pressão intracraniana. É uma das condições neurocirúrgicas mais comuns na infância, com incidência de aproximadamente 1 a cada 500 nascidos vivos. Em recém-nascidos, a hidrocefalia pode ser congênita (presente ao nascimento — malformações, estenose de aqueduto, espinha bífida) ou adquirida (pós-hemorrágica da prematuridade, pós-infecciosa por meningite, associada a tumores). O LCR é produzido continuamente pelos plexos coroides a uma taxa de 500 ml por dia no adulto (20 ml/h) e proporcionalmente no lactente, e deve ser absorvido na mesma taxa pelas granulações aracnóideas. Quando há obstrução da circulação ou falha na absorção, o acúmulo progressivo comprime o tecido cerebral e pode comprometer gravemente o desenvolvimento neurológico.
"Na hidrocefalia infantil, o tempo é determinante. Quanto antes tratamos, maior a chance de preservar o desenvolvimento neurológico da criança. Os sinais podem ser sutis no início — o acompanhamento do perímetro cefálico é essencial."
Dr. Marcelo Lamberti
Tipos e Causas de Hidrocefalia Infantil
Hidrocefalia obstrutiva (não comunicante): bloqueio na circulação do LCR dentro do sistema ventricular. A causa mais comum é a estenose de aqueduto de Sylvius (congênita ou adquirida), responsável por 10-20% dos casos. Outras causas: tumores de fossa posterior que comprimem o IV ventrículo, malformação de Dandy-Walker (agenesia/hipoplasia do vermis cerebelar com cisto de fossa posterior), malformação de Chiari II (associada à mielomeningocele).
Hidrocefalia comunicante: a circulação dentro dos ventrículos é livre, mas há falha na absorção do LCR. Causas mais comuns: hemorragia intraventricular do prematuro (graus III e IV — 25-50% desenvolvem hidrocefalia), meningite bacteriana (especialmente pneumococo e Gram-negativos), hemorragia subaracnóidea pós-traumática. Em prematuros com hemorragia intraventricular, a hidrocefalia pode se desenvolver em dias a semanas — ultrassonografia transfontanelar seriada é o exame de monitoramento.
Hidrocefalia congênita associada a síndromes: L1CAM (estenose de aqueduto ligada ao X — hidrocefalia + polegares aduzidos), síndrome de Walker-Warburg, holoprosencefalia, lisencefalia. Investigação genética é importante quando há malformações associadas.
Sinais e Sintomas por Faixa Etária
Lactentes (fontanela aberta): o sinal mais característico é o aumento acelerado do perímetro cefálico — cruzando percentis na curva de crescimento. Fontanela anterior abaulada e tensa, diástase (separação) de suturas cranianas, veias do couro cabeludo dilatadas e proeminentes, sinal do "sol poente" (desvio dos olhos para baixo pela compressão do teto do mesencéfalo sobre os colículos superiores — paralisia do olhar para cima), irritabilidade, choro agudo, vômitos, recusa alimentar, letargia. A medição do perímetro cefálico em toda consulta pediátrica é a medida mais simples e eficaz de triagem.
Crianças maiores (fontanela fechada): cefaleia progressiva (pior pela manhã, melhora ao longo do dia — porque a posição deitada durante a noite aumenta a pressão intracraniana), vômitos em jato (sem náusea precedente), visão turva ou visão dupla (paralisia do VI nervo — sinal de falso localização), papiledema ao exame de fundo de olho, dificuldade de marcha (ataxia), declínio no rendimento escolar, irritabilidade, alteração de personalidade, incontinência urinária nova.

A hidrocefalia causa dilatação dos ventrículos cerebrais — o tratamento precoce é fundamental para preservar o tecido cerebral
Tratamento Cirúrgico: DVP vs. TVE
O tratamento da hidrocefalia é essencialmente cirúrgico. As duas principais opções são:
Derivação ventrículo-peritoneal (DVP): um cateter drena o LCR dos ventrículos cerebrais para a cavidade abdominal, onde é absorvido pelo peritônio. O sistema tem três componentes: cateter ventricular (proximal), válvula reguladora de pressão e cateter peritoneal (distal). As válvulas modernas podem ser programáveis (ajustáveis externamente por campo magnético — marcas como Codman Hakim, Medtronic Strata, Miethke proGAV), permitindo ajuste fino da pressão de drenagem sem nova cirurgia. É o procedimento mais realizado no mundo para hidrocefalia. Desvantagem: dependência de prótese para toda a vida, com necessidade de revisões.
Terceiro ventriculostomia endoscópica (TVE): uma pequena abertura no assoalho do terceiro ventrículo cria uma via alternativa para o LCR contornar a obstrução, sem necessidade de prótese. Realizada com neuroendoscópio rígido introduzido por um orifício de 1 cm. A TVE é especialmente indicada na estenose de aqueduto (taxa de sucesso 70-90%) e em hidrocefalia obstrutiva por tumores. A TVE + coagulação do plexo coroide (CPC) é uma técnica combinada particularmente útil em lactentes menores de 1 ano (onde a TVE isolada tem alta taxa de falha), desenvolvida por Dr. Benjamin Warf e amplamente utilizada na África com resultados excelentes.
Complicações e Acompanhamento
Crianças com DVP necessitam de acompanhamento neurocirúrgico regular ao longo de toda a vida. Complicações mais comuns: obstrução do cateter (50% nos primeiros 2 anos — a complicação mais frequente), infecção (5-10% no primeiro ano, mais frequente em prematuros e em revisões — Staphylococcus epidermidis e S. aureus são os agentes mais comuns), hiperdrenagem (ventrículos em fenda, cefaleia postural, hematoma subdural crônico — prevenida com válvulas anti-sifão e programáveis), obstrução distal (encistamento peritoneal, pseudocisto abdominal) e desconexão/migração do cateter.
Os pais devem ser orientados a reconhecer sinais de mau funcionamento: retorno da cefaleia, vômitos inexplicados, sonolência excessiva ou letargia, irritabilidade diferente do habitual, febre sem foco (pode indicar infecção da DVP), hiperemia ou drenagem pela incisão, e em lactentes, abaulamento da fontanela. Esses sintomas exigem avaliação neurocirúrgica de urgência — não esperar até o dia seguinte. Exames: TC de crânio rápida (comparar com exame basal) ou RM rápida (sem contraste), radiografia do trajeto da DVP (shunt series) e coleta de LCR da válvula se houver suspeita de infecção.
"A válvula de derivação salvou milhões de vidas desde sua invenção na década de 1950, mas exige acompanhamento para toda a vida. A criança e a família precisam conhecer os sinais de mau funcionamento para buscar atendimento rápido. Nas minhas redes sociais, compartilho orientações práticas para pais de crianças com hidrocefalia." - Dr. Marcelo Lamberti
Fontes e Referências
- • Kahle KT, Kulkarni AV, Limbrick DD Jr, Warf BC. Hydrocephalus in children. The Lancet. 2016;387(10020):788-799. DOI: 10.1016/S0140-6736(15)60694-8
- • Kulkarni AV, Drake JM, Kestle JR, Mallucci CL, Sgouros S, Constantini S. Endoscopic third ventriculostomy vs cerebrospinal fluid shunt in the treatment of hydrocephalus in children: a propensity score-adjusted analysis. Neurosurgery. 2010;67(3):588-593. DOI: 10.1227/01.NEU.0000373199.79462.21
- • Warf BC. Comparison of endoscopic third ventriculostomy alone and combined with choroid plexus cauterization in infants younger than 1 year of age: a prospective study in 550 African children. Journal of Neurosurgery: Pediatrics. 2005;103(6 Suppl):475-481. DOI: 10.3171/ped.2005.103.6.0475
- • Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). Diretrizes de Hidrocefalia Pediátrica, 2022.
- • Kestle JRW, Riva-Cambrin J, Wellons JC 3rd, et al. A new Hydrocephalus Clinical Research Network protocol to reduce cerebrospinal fluid shunt infection. Journal of Neurosurgery: Pediatrics. 2016;17(4):391-396. DOI: 10.3171/2015.8.PEDS15253
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Atendimento em Itumbiara/GO
Dr. Marcelo Lamberti — Neurocirurgião. Rua João Manoel de Souza, 881, Itumbiara/GO. Tel: (64) 99297-1512.